Um futuro para além do casamento infantil: dar às raparigas a oportunidade de desenvolverem todo o seu potencial

2026-10-11

 Hoje, ao assinalarmos o Dia Internacional da Rapariga, a comunidade internacional é chamada a encarar uma realidade inegável: milhões de raparigas continuam a ser forçadas a casar-se precocemente, a um ritmo alarmante. O lento progresso nesta área leva-nos a questionar o que precisa de ser feito para apoiar os milhões de raparigas em todo o mundo que ainda vivem em condições que limitam o seu potencial.

As Nações Unidas indicam que mais de 12 milhões de raparigas se casam anualmente em todo o mundo — aproximadamente uma a cada três segundos —, sendo a África Subsaariana a região com a maior prevalência, de 31%. Os esforços globais demonstram que as reformas legais, as medidas de protecção social e a permanência das raparigas na escola já permitiram prevenir muitos casos de casamento infantil. A educação é uma das ferramentas mais importantes para combater esta prática.

De acordo com as estimativas da UNICEF para 2026, uma em cada cinco raparigas em todo o mundo casa-se antes dos 18 anos, o que representa aproximadamente 650 milhões de mulheres e raparigas vivas actualmente que se casaram durante a infância. Estes números demonstram que o casamento infantil continua a ser uma das violações dos direitos das raparigas mais disseminadas, evidenciando a dimensão dos desafios que ainda temos pela frente.

Não existe uma solução simples para acabar com o casamento infantil. Para uma rapariga, esta realidade pode significar trocar a sala de aulas por responsabilidades para as quais ainda não está preparada, interrompendo os seus estudos e reduzindo as suas oportunidades de escolha. A pobreza, a pressão para preservar a honra da família, as desigualdades de poder entre raparigas e homens, bem como interpretações de doutrinas religiosas que justificam o casamento precoce, podem contribuir para esta situação. Quando as famílias enfrentam dificuldades para garantir a alimentação diária, o casamento pode parecer uma forma de assegurar a sobrevivência. Contudo, o futuro de uma rapariga nunca deve ser o preço a pagar pela sobrevivência.

Combater estas pressões exige que as comunidades liderem a mudança, escutem as raparigas, apoiem as famílias e envolvam pais, líderes comunitários e líderes religiosos em diálogos abertos e honestos que questionem normas prejudiciais. As raparigas devem ter espaço para liderar estas discussões e participar na definição das decisões que afectam as suas vidas. As leis são essenciais, mas a mudança duradoura também depende da capacidade das comunidades de transformar os compromissos assumidos em acções concretas no dia-a-dia.

Enquanto Humana People to People, os nossos programas apoiam as raparigas a participar nos processos de tomada de decisão, a aceder a recursos e a contribuir positivamente para as suas comunidades. As raparigas trabalham lado a lado com homens, rapazes e líderes locais para garantir que o desenvolvimento inclusivo aconteça num ambiente favorável.

Em Moçambique, a desigualdade de género, a violência e a exclusão económica continuam a impedir muitas raparigas de desenvolverem plenamente o seu potencial e de participarem de forma significativa na vida social, política e económica. Em resposta a esta realidade, a ADPP Moçambique, membro da Humana People to People, trabalha directamente ao nível das comunidades, envolvendo pais, líderes comunitários e grupos de homens e rapazes como defensores da igualdade de género. Através do projecto Girls Get Equal, no distrito de Chiúre, província de Cabo Delgado, a organização promove o respeito, a protecção e o apoio às raparigas nas suas comunidades.

O projecto apoia a melhoria das condições económicas e sociais dos jovens, especialmente das mulheres jovens, promovendo a inclusão, reforçando a resiliência e apoiando a recuperação dos meios de subsistência nas zonas afectadas por conflitos e por crises sociais, económicas e climáticas. A capacidade das raparigas de tomar decisões sobre as suas próprias vidas permanece no centro da intervenção, juntamente com os esforços para promover mudanças positivas nas famílias, nas comunidades e nas instituições. Através do envolvimento dos ministérios governamentais, dos pais, das comunidades e dos seus pares, o projecto cria espaço para que as necessidades e as vozes dos adolescentes e jovens, sobretudo das raparigas, sejam ouvidas e compreendidas, ao mesmo tempo que os apoia a tomar decisões capazes de gerar impactos positivos nas suas vidas.

O projecto envolve 2.400 jovens, tendo como meta específica formar 700 jovens em 2026, no âmbito do objectivo definido para os cinco anos de implementação, com pelo menos 40% de participação feminina. Os jovens beneficiam de actividades adaptadas às suas necessidades, incluindo cursos de curta duração, apoio ao empreendedorismo para 700 agregados familiares, formação em agricultura climaticamente inteligente para 350 agregados familiares e apoio à criação de negócios para 160 jovens. Este último inclui capital inicial, kits de ferramentas e acompanhamento contínuo para a implementação dos seus planos de negócio.

“Antes, ficava em casa sem saber como mudar a minha vida. Através do projecto Girls Get Equal, adquiri conhecimentos de empreendedorismo e competências financeiras que me deram confiança para construir o meu futuro. Juntamente com outras três jovens, abri um salão de beleza. Hoje, o nosso negócio gera rendimentos, apoia as nossas famílias e permite-nos poupar para adquirir um terreno onde poderemos construir um salão permanente. Estou grata por esta oportunidade. O meu sonho é fazer crescer o nosso negócio, chegar a outras comunidades e inspirar mais jovens mulheres a acreditarem em si próprias.”

A história de Naira demonstra como a formação, o trabalho em equipa e o acesso a oportunidades podem transformar a vida dos jovens, reforçando a sua independência económica e criando esperança num futuro melhor.

Ao celebrarmos estes progressos, devemos recordar que transformar práticas culturais enraizadas há muito tempo é um desafio. Contudo, isso não deve impedir a comunidade internacional de continuar a combater as pressões sociais que favorecem o casamento precoce.

A Humana People to People, juntamente com as suas organizações-membro, reconhece a importância de investir nas raparigas. Em parceria com as comunidades, os governos e outros parceiros, continuamos a trabalhar para construir sociedades inclusivas, onde as raparigas possam desenvolver o seu potencial, liderar e contribuir positivamente como membros com direitos iguais, e não como pessoas de menor valor.

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