Chamo-me António Lourenço Mutarua, tenho 42 anos e há mais de duas décadas dedico a minha vida à educação. Actualmente, sou director da Escola Básica de Mudira, localizada no Posto Administrativo de Namanjavira, distrito de Mocuba, uma região frequentemente afectada por ciclones, cheias e outras calamidades naturais.

Durante muitos anos, ensinar e gerir a escola foi um enorme desafio. Sempre que chegava a época chuvosa, muitos alunos abandonavam as aulas devido às dificuldades de acesso e as condições que a escola oferecia. Os casamentos prematuros, um problema persistente na comunidade, também contribuíam para o aumento da desistência escolar, comprometendo o futuro de muitas raparigas.
A participação dos pais e encarregados de educação na vida escolar era reduzida, dificultando os esforços para garantir a permanência e o sucesso dos alunos. Ao mesmo tempo, nós, professores, enfrentávamos longas deslocações diárias, percorrendo mais de 65 quilómetros, porque não existiam habitações próximas da escola destinadas aos docentes.
Como se estes desafios não fossem suficientes, vivemos um episódio que marcou profundamente a nossa comunidade escolar. A escola foi alvo de um roubo e perdemos todos os documentos administrativos e os processos dos alunos. A reconstrução destes registos foi extremamente difícil e revelou a fragilidade do sistema de gestão da informação da escola.
Foi nestes contextos em que víviamos que conhecemos o Projecto de Fortalecimento da Resiliência e Bem-Estar dos Professores em Contextos de Crise. Desde o primeiro momento, sentimos que esta iniciativa poderia representar uma verdadeira mudança para a nossa escola.
Participei na formação destinada aos coordenadores das Zonas de Influência Pedagógica (ZIP), onde adquiri novos conhecimentos sobre equidade de género, educação inclusiva, apoio psicossocial, gestão de riscos e desastres e utilização de soluções digitais para o armazenamento seguro de documentos escolares.
A introdução das soluções digitais foi uma das maiores transformações que vivemos. Hoje, toda a documentação da escola está armazenada na nuvem, protegida contra perdas causadas por roubos, chuvas ou outras situações de emergência. Este avanço trouxe-nos maior segurança, organização e rapidez no acesso à informação, permitindo-nos garantir a continuidade do funcionamento da escola mesmo em situações de crise.
Os resultados também são visíveis na comunidade. A desistência escolar diminuiu, os casos de casamentos prematuros reduziram significativamente graças ao maior envolvimento da escola e das famílias, e conseguimos reabilitar parte das infra-estruturas escolares, utilizando tijolo queimado, cimento e respiradores que tornam os edifícios mais resistentes às intempéries.
Hoje, a Escola Básica de Mudira é uma escola mais preparada, mais inclusiva e mais resiliente. Professores, alunos, pais e comunidade trabalham lado a lado para proteger o direito à educação, mesmo perante as adversidades.
O projecto não transformou apenas a nossa escola. Transformou a nossa forma de enfrentar as crises, fortaleceu a confiança da comunidade e mostrou-nos que, com conhecimento, preparação e colaboração, é possível garantir que nenhuma criança fique para trás.
Tenho orgulho em dizer que hoje já não somos apenas uma escola vulnerável às calamidades. Somos uma escola resiliente, preparada para enfrentar os desafios do presente e construir um futuro melhor para os nossos alunos.